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Embora apenas considere essa possibilidade lá para daqui a uns dez anos, J.K.Rowling deixa algumas esperanças aos fãs do jovem feiticeiro ao ponderar escrever um oitavo livro da série que iniciou há 17 anos. Ler a notícia aqui.

Um belo poema para começar 2008. “Recomeça”, de Miguel Torga…

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

As Benevolentes, de Jonathan Littell, Ed. D. Quixote, 2007, 896 p.

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As Benevolentes é uma epopeia de um ser arrastado pelo seu próprio percurso e pela História.

As Benevolentes são as memórias de Maximilien Aue, um ex-oficial nazi, alemão de origens francesas que participa em momentos sombrios da recente história mundial: a execução dos judeus, as batalhas na frente de Estalinegrado, a organização dos campos de concentração, até a derrocada final da Alemanha. Uma confissão sem arrependimento das desumanidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, que provoca uma reflexão original e desafiadora das razões que levam o homem a cometer o mal.

(Sinopse da editora)

Mais sobre o livro em Leituras.

text-file-48x48.pngApercebeu-se que ou apercebeu-se de que?

Deve dizer-se  e escrever-se «apercebeu-se de que». Por exemplo: «Ele apercebeu-se de que se tinha enganado a escrever o verbo».

Aperceber-se, como sinónimo de «dar-se conta», «tomar consciência», exige a preposição «de». Já «perceber», no sentido de «compreender», não precisa do «de». Por exemplo: «Ele percebeu que se tinha enganado a escrever o verbo».

Pode contudo utilizar-se «perceber de» no sentido de «saber muito sobre determinado assunto». Por exemplo: «Ele percebe muito de Matemática».

Terminamos hoje, dia de Natal, a publicação de poemas sobre o Natal, de autores portugueses, iniciada no dia 7 de Novembro, no seguimento do colóquio realizado na escola sobre Padre Alberto Neto e os escritores nascidos em 1907: Miguel Torga, Carlos Queirós e Jorge Dias. Guardei para o fim um dos meus poetas preferidos: António Gedeão. Deixo também uma ligação para um ficheiro mp3, do audioblog “Estúdio Raposa”, com o poema declamado por Luís Gaspar.

Um bom Natal.

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DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela, se multiplica em gestos esfuziante,
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
E como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor! – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha em pijama.

Ah!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo oitavo:

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NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado…
Só esse pobre me pareceu Cristo.

Vitorino Nemésio

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo sétimo:

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PRECE DO NATAL

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.

Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»…

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

A mais insofrida
De tantas misérias
– Não termos mais férias
Ao longo da vida –

Trocai por amenas
Manhãs sem cuidados,
Silêncios banhados
De ideias serenas;

Por cantos e flores
Risonhas imagens
Macias paisagens
Felizes amores!

Carlos Queirós

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo sexto:

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LITANIA DO NATAL

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

José Régio

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo quinto:

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[CHOVE. É DIA DE NATAL]

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo quarto:

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OS PASTORES

Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.

Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.

Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.

Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:

«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!

Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!

Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»

Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.

Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.

E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!

Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»

Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.

Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…

Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.

Gomes Leal

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo terceiro:

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NATAL

Turvou-se de penumbra o dia cedo;
Nem o sol apertou no meu beiral!
Que longas horas de Jesus! Natal…
E o cepo a arder nas cinzas do brasedo…

E o lar da casa, os corações aos dobres,
É um painel a fogo em seu costume!
Que lindos versos bíblicos, ao lume,
Plo doce Príncipe cristão dos pobres!

Fulvas figuras pra esculpir em barro:
À luz da lenha, em rubro tom bizarro,
Sou em Presépio com meus pais e irmãos

E junto às brasas, os meus olhos postos
Nesta evangélica expressão de rostos,
Ergo em graças a Deus as minhas mãos.

Afonso Duarte

Dos Santos ao Natal, Inverno natural.

Do Natal a Janeiro, um salto de carneiro.

De Santa Catarina ao Natal, mês igual.

De Santa Luzia ao Natal, um salto de pardal, de Natal a Janeiro, um salto de carneiro.

De Todos os Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.

Do Natal à Santa Luzia cresce um palmo o dia.

Do São Martinho ao Natal, o médico e o boticário enchem o bornal.

Entrudo borralheiro, Natal em casa, Páscoa na praça.

Galinhas de São João, pelo Natal poedeiras são.

Laranja antes do Natal livra do catarral.

Se a Páscoa é a soalhar, é o Natal atrás do lar; se o Natal é a soalhar, é a Páscoa atrás do lar.

Mal vai Portugal se não há três cheias antes do Natal.

Namoro de Carnaval, não chega ao Natal.

Natal à sexta-feira, por onde puderes semeia; domingo vende bois e compra trigo.

Natal ao soalhar e a Páscoa ao luar.

Natal ao sol, Páscoa ao fogo, fazem o ano formoso.

O Natal ao soalhar e a Páscoa ao luar.

Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar.

Para que o ano não vá mal, hão-de os rios encher três vezes entre São Mateus e o Natal.

Até ao Natal salto de pardal, de Natal a Janeiro salto de carneiro e de Janeiro a Fevereiro salto de outeiro.

Quem colhe antes do Natal, deixa o azeite no olival.

Quem morre de véspera é peru de Natal.

Comido o Natal, à segunda-feira tem o lavrador que alugar a eira.
_________

In Diciopédia X [DVD-ROM]. Porto: Porto Editora, 2006. ISBN: 978-972-0-65262-1

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo segundo:

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HINO DE AMOR

Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.
Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

João de Deus

Quem consegue identificá-los todos?

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo primeiro:
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O NASCIMENTO

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra etérea do crepúsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as árvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!

E, pelos negros píncaros, a estrela
É divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lírio de oiro aberto! É rosa a arder!

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Tão virginal, tão nova, que parece
Sair das mãos de Deus, a vez primeira!

E como, sobre os montes, resplandece!

Persegue-a o sol amado… No oriente,
Alastra um nimbo anímico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparência e palidez.

Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela… E cá na terra
Há mágoas e penumbras, a fugir…

Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!

E os pastores, atentos, vão seguindo
A direcção etérea do seu voo…

E a quimérica estrela deslumbrante
Parou sobre a capela, onde a Saudade
Agasalhava o Deus recém-nascido,
Com seu manto de amor e claridade.
E, amparando-o nos braços, lhe estendia
Os seios maternais. A criancinha
Mamava. E a Saudade lhe sorria,
Num enlevo, num êxtase sagrado.

A primavera, errante no Marão,
Veio cobrir de lírios e de rosas
O berço do Menino. E veio o outono,
E vieram ermas sombras dolorosas.
Logo, o outono rezou a sua prece

De cinzas e de bruma. E o lindo sol,
Entrando pelos vidros, aparece,
Junto ao pequeno berço. E toda a luz
Do céu veio com ele! E veio a noite.
Vieram as avezinhas, que deixaram,
No recôndito ninho, abandonados,
Os filhos ainda implumes. E cantaram
Em louvor do Menino e da Saudade.

E Marânus sentia, mais alegre,
Tornar-se vida, amor, fecundidade,
A sua antiga e mística tristeza.

E, ao ver a própria alma da sua raça
Criar a Virgem Mãe dum novo Deus,
Eis que à flor dos seus lábios esvoaça
O sorriso supremo da vitória.

E a Saudade, num casto e luminoso
Gesto de amor, tomando, novamente,
O Menino nos braços, o embalava.
E sobre ele inclinava docemente
A fronte aureolada. E uma canção,
Que era feita de todas as cantigas,
Mais num murmúrio brando de oração

Que em voz alta, cantava. E o Deus menino,
Com os olhos abertos, num espanto,
Recebia do mundo a clara imagem
E o seu nubloso e misterioso encanto…

Também o bom pastor, a quem Marânus
Havia prometido o Nascimento,
Sentia em seu espírito surgir,
Envolto num astral deslumbramento,
Estranho e novo ser, que dissipava
O seu velho crepúsculo interior,
Onde um fantasma, trágico e nocturno,
Aparição do medo e do terror,
Furibundo, reinava, desde os séculos!

O Menino crescia, como a aurora
Que, sendo esparso vulto de mulher,
Na linha do horizonte, que descora,
Lembra a auréola dum Deus anunciado…

Em volta dele, as coisas se animavam
Dum sentido mais belo e verdadeiro;
E a sua alma oculta desvendavam,
Como na luz primeira da Existência.

Mundo transfigurado! Ó terra santa!
Ó terra já divina e toda erguida
Àquela altura ideal da Eternidade,
Mais uma vez, a morte foi vencida!

Alguns dias passaram. E Marânus
Disse que ia partir à sua Esposa,
E que se entregava ao casto amor, tão puro,
Desta leal paisagem montanhosa.
E, chorando, abraçava-a, e repetia
Que tinha de partir; mas, dentro em pouco,
Por uma clara noite, voltaria.

E a trágica Saudade, sufocada:

«Eu bem conheço a voz que te chamou!
Voz que ilumina as árvores e as nuvens,
E que meu ser antigo transformou
Neste meu ser anímico e perfeito.»

E, mais serena e resignada: «Vai!
Cumpre a sua vontade. É teu destino…»

E beijando-o nos lábios, e tomando
Em seus braços de imagem o Menino,
Subiu a um alto píncaro escarpado,
De onde ela, por mais tempo, contemplasse
O esposo e companheiro bem amado.

E, sozinha, de pé, sobre um rochedo,
Disse-lhe um longo adeus.
E, já distante,
Marânus, ansioso, para trás
Volvia a face triste, a cada instante.
E parava, cismando…
Mas, ao longe,

O corpo da Saudade, vago e incerto,
Perdia-se, no ar que se turbava…

Anoitecia. A serra era um deserto.
E Marânus seguia o seu caminho.

Teixeira de Pascoaes

Com algum humor… Disponível aqui.

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o décimo:

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NOITE DE NATAL

[A um pequenito, vendedor de jornais]

Bairro elegante, – e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu…

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu.

A noite é fria; a geada cresta;
Em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar…

Todas as portas já cerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu,

Em plena rua, que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
O pequenito adormeceu…

Em torno dele – ó dor sagrada!
Ao ver um círculo sem geada
Na sua morna exalação,

Pensei se o frio descaroável
Do pequenino miserável
Teria mágoa e compaixão…

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
Com o presépio de Belém…

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
E aos orfãozinhos sem ninguém…

E todo o céu se lhe apresenta
Numa grande Árvore que ostenta
Coisas dum vívido esplendor,

Onde Jesus, o Deus Menino,
Ao som dum cântico divino,
Colhe as estrelas do Senhor…

E o pequenito extasiado,
Naquele sonho iluminado
De tantas coisas imortais,

– No céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp’rança,
Vender melhor os seus jornais…

António Feijó

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o nono:
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ROSAS DE INVERNO

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

Camilo Pessanha

Realização hoje mais uma sessão (a 4.ª) da oficina de formação «Pesquisa, Avaliação, Gestão e Utilização de Recursos Electrónicos na Escola e Centro de Recursos». A oficina, com a duração de 50 horas, frequentada por 16 professores. O tema da sessão de hoje serão as bibliotecas digitais.

Acabam hoje as aulas do 1.º período, e também a feira do livro usado, que decorre na nossa biblioteca desde a passada quarta-feira. No dia de hoje, sem actividades lectivas na escola, alunos e professores desfrutam das actividades culturais e desportivas previstas no Plano Anual de Actividades.

Abre também hoje em Lisboa a maior livraria do país, a Byblos, nas Amoreiras, homónima do nosso portal de recursos electrónicos e cheia de boas presentes para oferecer no Natal . Para todos um bom Natal, com muitas leituras.

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o oitavo:
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EXCERTO DUM CONTO DE NATAL

Bate o mendigo a uma porta e fala
Com uma voz que geme, treme e exala
Todo o cansado frio e a velha fome
Que o seu corpo tristíssimo consome:
– Irmão, peço poisada. É um mendigo
Que, foi, um dia, o teu melhor amigo,
E que a Dor imortal, com desenganos,
Envelhecendo anda há dois mil anos!
Dar-me-ás do teu lume e do teu pão
E mais da tua caridade, irmão.

Morri por ti, pregado numa cruz.
Abre-me a tua porta, Sou Jesus…

E de dentro da casa, onde bateu,
Eis que uma voz assim lhe respondeu:
– O meu cão vem das terras onde cavam
Cavadores que eu pago e ma desbravam:
É para a minha mesa, é pra meus dentes
Que o mastigam agudos e contentes.

O meu lume é só meu. O lenhador,
Que é o meu servo, como cavador,
Abate as minhas árvores, trabalha
Para me dar conforto, e me agasalha.

E o sol amadurece o pão que é meu,
Que apenas para mim floriu, cresceu,
E enrijo cada árvore tamanha
Que me dará, em cada Inverno, a lenha.

Lume e pão são pra mim. Não quero dar!
Tu és Jesus? Mas nunca ouvi falar…

Vai Jesus pelas ruas da Cidade,
Sozinho, preso de uma ansiedade,
Que era lembrar a voz que lhe falara
Pela boca do Rico dura e avara
Antes causar-se plo caminho escuro,
Labutar e perder-se e, mal seguro,
Descansa pelas granjas ao relento,
Coberto e agasalhado pelo vento,
Mas as ruas andavam povoadas
De sombras aflitivas e curvadas:
Uma senhora, com um véu plo rosto.
Toda de luto, ali se tinha posto
Silenciosa e silenciosamente,
Uma mão estendia para gente.

Esfrangalhada, toda enfezadinha
Com a voz de sono, uma pobrezinha
Disse a Jesus, que se compadecesse,
– Ele não tinha nada que lhe desse…
E Jesus, debruçado prà mendiga
Numa ternura comovida e antiga,

Com mão de avó, consoladora e boa,
Com seu gesto de outrora, acariciou-a…
Oh! desgraçado! – foi Jesus pensando
Entre as alas pobres caminhando –
Oh! desgraçado do mendigo triste
Que na Cidade pede esmola existe!

Estes presos da Rua nem conhecem
As árvores, as aves que enternecem,

A natureza cândida que estreita
A Dor nos braços e nenhuma enjeita!
Boquiabertos defronte das vitrinas
Roçam pela dureza das esquinas,
E nada sabem dos leais afagos
Da ave que canta e do perdão dos lagos…

E no Campo seria que Jesus,
Que morreu pelos pobres numa cruz,

Acharia, o irmão risonho e amigo
Que, pla doçura do Verbo antigo,
Das parábolas doces se lembrasse
E, por elas feliz, o agasalhasse
E da cidade trágica fugindo
Jesus foi caminhando, foi seguindo.

Afonso Lopes Vieira

text-file-48x48.pngDescriminar ou discriminar…

Ambos os verbos existem, a sua utilização é que por vezes não é adequada ao contexto. Assim, descriminar significa descriminalizar (forma preferível), isto é, isentar de culpa, tornar evidente a ausência de crime, absolver. O problema é quando se usa descriminar para designar a acção de tratar mal ou de modo injusto, desigual, um indivíduo ou grupo de indivíduos, em virtude de alguma característica pessoal, cor da pele, classe social, convicções, etc. Neste caso deve usar-se discriminar, para evitar que nos incriminem por tratar mal a língua portuguesa.

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o sétimo:
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A NOITE DE NATAL

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

Mário de Sá-Carneiro

Biblioteca Digital Europeia prevê, em 2011, ter em linha 6 milhões de livros e outros documentos. Não se trata apenas de facilitar o acesso à leitura, pela via digital: os leitores portugueses poderão passar a consultar obras de autores nacionais que não existem no país, nem mesmo no depósito da Biblioteca Nacional.
Desenvolvimento da notícia no Diário Digital.

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o sexto:
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NATAL

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre

No início do próximo ano, a Biblioteca Nacional Digital, departamento da Biblioteca Nacional, vai disponibilizar um conjunto de Enciclopédias e Dicionários em Portugal do século XVII ao século XIX e ainda 300 mil páginas de jornais portugueses do século XIX.
Ler desenvolvimento da notícia no Diário Digital.

Trabalho realizado pelos alunos do Clube de Artes Plásticas, ano lectivo 2006/07.

Autores: Paul Stewart e Chris Riddell (Il.)
Editor: Porto Editora
Colecção: Crónicas do Abismo
Ano de Edição: 2007
N.º de Páginas: 288

Sinopse:
O teu destino espera-te para além dos Bosques Profundos…

Abandonado à nascença nos perigosos Bosques Profundos, Twig foi criado por uma família de trolls do bosque. Numa noite fria, Twig faz o que nunca nenhum troll do bosque tinha feito: desvia-se do trilho.
Assim começa uma aventura empolgante que levará Twig através de um mundo de pesadelos, habitado por duendes, feras sanguinárias e árvores carnívoras. Um único desejo impele Twig a enfrentar todos os perigos: a ânsia de descobrir a sua verdadeira identidade e o seu destino…

Críticas de imprensa
“Espantosamente original.”
The Guardian (UK)

“Uma fantasia muito imaginativa (…) Uma das colaborações mais extraordinárias entre um escritor e um ilustrador desde há muito tempo.”
The Literary Review (UK)

“Fabulosamente ilustrado (…) e escrito com muita elegância.”
The Sunday Times

Sinopse: Porto Editora

Sobre os autores:

http://www.stewartandriddell.co.uk

http://www.fantasticfiction.co.uk/s/paul-stewart

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o quinto:
________________________________________________

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.

Pedro Tamen

Decorreu na nossa escola, na passada sexta-feira, o colóquio “Alberto Neto e os escritores de 1907″, com a presença dos professores universitários Fernando Catarino e José Manuel Cymbron, no âmbito das comemorações do 20.º aniversário da nossa escola. A conversa decorreu em torno do Padre Alberto Neto, patrono da escola, e dos escritores Miguel Torga, Jorge Dias e Carlos Queiroz, cujo centenário do nascimento se comemora este ano. O evento contou ainda com dois momentos musicais e concluiu-se com a colocação, no exterior da escola, dos ninhos de poemas que estiveram em exposição na Biblioteca.

Deixamos aqui os textos que serviram de inspiração ao colóquio:

Cercadas de abismos
Por todos os lados
As almas são ilhas
Em nós sepultadas.
Ilhas solitárias
Sem pontes, sem túneis,
Sem possível tráfego
De umas para as outras.
Ilhas assombradas
As almas parecem.
Deus se compadeça
Do nosso arquipélago!

——————–

É urgente descobrir
Na flora da fantasia
Uma espécie de semente
Que gere a pura alegria
E se possa produzir
Nas almas de toda a gente

Carlos Queiroz

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MENSAGEM

Vinde à terra do vinho, deuses novos!
Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da madrugada deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A oliveira da paz e o lírio agreste…

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

———————————

PARA A VIAGEM
Apresta o coração como um veleiro
Que vai atravessar o tormentoso.
Luz contra o nevoeiro,
E a bandeira de um sonho generoso
Mais alta do que os gritos do gajeiro

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ESTRELA DO OCIDENTE

Por teus olhos acesos de inocência
Me vou guiando agora, que anoitece.
Rei Mago que procura e desconhece
O caminho,
Sigo aquele que adivinho
Anunciado
Nessa luz só de luz adivinhada,
Infância humana, humana madrugada.

Presépio é qualquer berço
Onde a nudez do mundo tem calor
E o amor
Recomeça.
Leva-me, pois, depressa,
Através do deserto desta vida,
À Belém prometida…
Ou és tu a promessa?

———————————-
A S. FRANCISCO DE ASSIS

Louvado sejas, meu irmão poeta,
Pela beleza excelsa do teu canto,
O mais singelo,
Singular
E santo
De quantos se entoaram neste mundo.
Louvado sejas pelo profundo
Sentimento de paz
Que nele nos dás, cego a exaltar o sol,
Podre a exaltar a vida,
E até rendido aos pés da própria morte,
Nossa nocturna irmã sem caridade.
E louvado também pela humildade
Tutelar
Da tua inspiração,
Que soube, humanamente, ser do chão,
Mesmo erguida nas asas e a voar…

SEI UM NINHO
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar…

Miguel Torga

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«Um vez, um home de Rio de Onor, que tinha um filho a fazer serviço num regimento de Bragança, precisou dele para o ajudar na segada do centeio. Meteu-se ao caminho e, quando chegou a Bragança, dirigiu-se ao quartel e disse que queria que lhe dessem licença para o filho vir ajudar à segada. Responderam-lhe que só o comandante podia fazer tal coisa. Dise então que queria falar com o comandante. Mas como o informassem de que este não estava, insistiu em falar com ele, estivesse onde estivesse. Disseram-lhe então que fosse a uma determinada praça da cidade, onde costumava estar àquela hora a conversar com os amigos, e que o reconheceri facvilmente, porque era um oficial alto e já idoso. O homem lá foi. Chegou à praça e viu um oficial como o que lhe descreveram, e ditrigiu-se-lhe nos seguintes termos:
- Tu de la correia, tu sôs quên manda nus soldaus?
O comandante disse-lhe que sim e perguntou-lhe o que queria.
- Tengo un fio qui iè soldau que benga pa cassa a facer a segada.
O comandante achou graça àquela franqueza rude, pediu o número do rapaz e deu-lhe a licença desejada.»

Jorge Dias

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«A primeira grande virtude do educador é não ter demasiadas certezas. (…) a única certeza que pode ter é de que, nas questões da vida e do amor, e de todos estes grandes mistérios vitais, a grande sabedoria é a capacidade de procura e de pesquisa permanente (…)»

«É muito fácil dizer ao inferior: “sim, sim; não, não”. Mas é tão difícil dizer ao superior, com a mesma simplicidade: “Não é verdade”.

Padre Alberto Neto

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Poema cantado pelos alunos:

APRENDER A ESTUDAR

Estudar é muito importante,

mas pode-se estudar de várias maneiras….

Muitas vezes estudar não é só aprender

o que vem nos livros.

Estudar não é só ler nos livros

que há nas escolas.

E também aprender a ser livre,

sem ideias tolas.

Ler um livro é muito importante,

ás vezes urgente.

Mas os livros não são o bastante

para a gente ser gente.

É preciso aprender a escrever, mas também a viver, mas também a sonhar.

É preciso aprender a crescer,

aprender a estudar.

Aprender a crescer quer dizer:

aprender a estudar, a conhecer os outros,

a ajudar os outros,

a viver com os outros.

E quem aprende a viver com os outros

aprende sempre a viver bem consigo próprio.

Não merecer um castigo é estudar.

Estar contente consigo é estudar.

Aprender a terra, aprender o trigo

e ter um amigo também é estudar.

Estudar também é repartir,

também é saber dar

o que a gente souber dividir

para multiplicar.

Estudar é escrever um ditado

sem ninguém nos ditar;

e se um erro nos fôr apontado

é sabê-lo emendar.

É preciso em vez de um tinteiro,

ter uma cabeça que saiba pensar,

pois, na escola da vida, primeiro está saber estudar.

Cantar todas as papoilas de um trigal

é a mais linda conta que se pode fazer.

Dizer apenas música,

quando se ouve um pássaro,

pode ser a mais bela redacção do mundo…

mas pensar é tudo!

Ary dos Santos

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o quarto:

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PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira

chihiro.jpg

Realização: Hayao Miyazaki
Duração: 126 min
Idade: M/ 6
Chihiro (Hiiragi), de 10 anos, viaja com os pais para a nova casa. Com dúvidas quanto à estrada correcta, seguem pelo que parece ser um atalho, mas esse caminho acaba junto a um longo túnel. Decidem deixar o carro e atravessar o túnel a pé, chegando a uma cidade aparentemente deserta. Os pais da menina, atraídos pelo agradável aroma, entram num restaurante e começam a comer, apesar de não haver ninguém no local. Desconfortável com a situação e com vontade de voltar para trás, a pequena caminha pela cidade, deparando com fantasmas e outras criaturas estranhas. Volta, a correr, para junto dos pais para descobrir, horrorizada, que os dois foram transformados em dois porcos bem gordos. A cidade é afinal uma estância de repouso para deuses e Chihiro vê-se forçada a trabalhar na casa de banhos da bruxa Yubaba (Natsuki), enquanto procura uma saída e um meio de salvar os pais.

Miyazaki criou uma história – “para todos os que têm 10 anos e para os que já tiveram” – que poderá ter uma mensagem simples, como a necessidade de lutar e enfrentar as adversidades, em vez de fazer birra, num canto. «A Viagem de Chihiro» envolve-se numa narrativa densa, com múltiplas personagens e situações elaboradas, fundadas em mitos e tradições japonesas – ainda que a arte seja, de um modo geral, saída da imaginação do autor –, que não haverão de parecer estranhos mesmo a quem nunca tenha visto um filme sobrenatural produzido no Japão.
Visualmente, o filme demonstra que a animação tradicional pode ainda surpreender e que a simplicidade aliada ao talento continua a ser um grande trunfo.

Sinopse de: http://www.asia.cinedie.com

Página sobre o filme: http://www.europafilmes.com.br/aviagemdechihiro/

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o terceiro.

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Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Estão a fazer furor no Japão os livros escritos em telemóveis para serem lidos em telemóveis. Segundo o jornal australiano Sydney Herald, dos 10 livros mais vendidos no Japão nos primeiros seis meses de 2007, metade foi escrita no telemóvel. Os keitai shousetsu - expressão que em português significa aproximadamente “livro móvel” - destinam-se essencialmente a um público jovem e a maior parte deles são escritos por adolescentes. São comuns o uso de abreviaturas e de “emoticons”. Alguns livros chegam a vender mais de um milhão de exemplares, como é o caso de Koizora, que conta a história de uma rapariga raptada e violada pelos sequestradores. As histórias que mais vendem são todas a típica literatura de cordel, com pouco ou nenhum desenvolvimento das personagens e doses elevadas de sexo e crime. No entanto, a popularidade do formato está também a atrair a literatura “tradicional”, o que permitirá chegar a outros públicos: Os Irmãos Karamazov, a monumental obra-prima de Dostoievski, já vendeu mais de 300 mil exemplares.
De acordo com a Wired, um “livro móvel” tem normalmente entre 200 a 500 páginas, cada página contendo 500 caracteres japoneses.

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o segundo:

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POEMA VIII DE O GUARDADOR DE REBANHOS

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se ao longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher; era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães,
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
……………………………………………

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava,
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
E esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
…………………………….

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
…………………………….

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Alberto Caeiro

Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal.

Cá vai o primeiro, de Miguel Torga, no fim do ano do seu centenário:

________________________________________

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

Miguel Torga

text-file-48x48.pngAntártida, Antártica, Antárctida, Antárctica…

Uma simples busca na Internet apresenta-nos milhares de ocorrências de cada uma das quatro formas, mas somente duas delas estão correctas no português de Portugal e não significam o mesmo. Antártida e Antártica, pelo menos até 2017 (quando entrar em vigor o acordo ortográfico), são erros ortográficos. Devemos usar Antárctida para designar a região mais a sul do globo terrestre, isto é, o território situado em volta do Pólo Sul . Quanto a Antárctica, deve ser usado apenas como adjectivo, para qualificar o que se refere à Antárctida. As secções meridionais dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico formam o oceano Antárctico, que envolve a Antárctida.

Diário Russo, de Anna Politkovskaya, Ed. Bertrand, 2007
diariorusso.jpg

Sob a forma de diário, a jornalista Russa Politkovskaya, assassinada no ano passado, cobre o período que decorre entre as eleições parlamentares russas de Dezembro de 2003 e o trágico resultado do cerco à escola de Beslan em 2005: o livro inclui relatos em primeira-mão, reflexões, conversas, observações que reflectem acontecimentos como as eleições parlamentares e presidenciais de 2003 e 2004, o desastre de Beslan, a revolução na Ucrânia e a demanda da Chechénia.
A jornalista não hesita em denunciar as circunstâncias nada democráticas em que o presidente Putin foi reeleito, o silenciamento da imprensa, a neutralização dos partidos da oposição, bem como a incapacidade dos liberais e democratas para formar uma oposição unida e eficaz, e a lentidão com que a população russa contesta os ultrajes legislativos do governo.
O livro inclui ainda entrevistas a pessoas cujas vidas foram devastadas pelas polícias de Putin, incluindo as mães das crianças cujos filhos morreram no cerco de Beslan, as vidas dos soldados russos estropiados na Chechénia e depois abandonados pelo Estado e de todos os jovens homens e mulheres dados como “desaparecidos”.

A 7 de Outubro de 2006, Anna Politvoskaya foi morta a tiro à porta da sua casa, a meio de uma investigação que estava a levar a cabo para o jornal Novaya Gazeta sobre a tortura na Chechénia.

O Livro Negro da Condição das Mulheres, coord. Christine Ockrent, Círculo de Leitores, 2007

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Um retrato da condição da mulher no mundo. Entre os cinco continentes, atravessando culturas e costumes, a jornalista francesa Christine Ockrent fez-se rodear dos grandes especialistas, das mais actuais reportagens, estudos e testemunhos de mulheres que viveram a humilhação e a violência
Reunindo reportagens, textos e testemunhos de todo o mundo, «O Livro Negro da Condição das Mulheres» concretiza um ambicioso balanço. Da Europa à Ásia, da África à América, contam-se casos concretos de discriminação.
Se na Europa os níveis de igualdade e liberdade são já assinaláveis, continuam a registar-se diferenças flagrantes em termos da possibilidade carreira e de acesso ao poder político. Longe sequer da possibilidade de escolha, algumas mulheres muçulmanas continuam a ser assassinadas ou apedrejadas pelas próprias famílias em casa de desonra. Em África, e em algumas comunidades imigrantes, por exemplo em França, continua a praticar-se a excisão (mutilação dos órgãos sexuais femininos). A pobreza permite ainda que em alguns países asiáticos jovens raparigas sejam vendidas para a prostituição, vivendo uma espécie de escravatura moderna a que muitos querem fechar os olhos.

 

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)

Cecília Meireles

Realiza-se amanhã na nossa Biblioteca o Colóquio “Padre Alberto Neto e os escritores nascidos em 1907″, dinamizado pelos Professores Fernando Catarino e José Cymbron. Serão abordados os escritores Carlos Queiroz (1907-1949), Jorge Dias (1907-1973) e Miguel Torga (1907-1995). O cartaz do evento pode ser visto aqui.

Sobre Miguel Torga: http://purl.pt/13860/1/galeria.htm

A propósito da comemoração do dia dos Direitos Humanos, no dia 10 de Dezembro, aqui fica uma lista de filmes que poderão ser usados para reflectir nas escolas sobre esta temática:

Chove em Santiago
Realizador: Helvio Sotto
Actores: John Abbey, Bibi Andersson, Dimiter Bouinosof, Nicole Calfan, Riccardo Cucciolla, Vera Dikova, Lyubomir Dimitrov, André Dussollier, Bernard Fresson, Maurice Garrel, Annie Girardot, Dimiter Guerasimof, Patricia Guzmán.
Idade: M/ 12

Quando Salvador Allende, um político de esquerda, se tornou presidente do Chile, forças do interior e do exterior do país, incluindo a própria CIA americana, conspiraram para desencadear a sua destituição. Tal aconteceu em 11 de Setembro 1973, com um golpe de estado que custou a vida a Allende.

Tempos Modernos
Actores: Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann
Realizador: Charles Chaplin
Idade: M/6

Embora se trate de uma comédia, esta pequena obra-prima de Chaplin, o último dos seus grandes filmes mudos, enfatiza alguns problemas sociais importantes da primeira metade do século. A intolerância política, industrialização selvagem, a tirania da máquina, as greves e os fura-greves os problemas do operariado, o desemprego e a miséria resultantes da Depressão dos anos 30. A capacidade de espiar os empregados no seu local de trabalho era ficção em 1936, quando o filme foi feito, mas é hoje uma realidade. O filme foi proibido na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

“Tempos Modernos” é hoje, como o foi nos anos 30, um comentário brilhante à sobrevivência humana nas condições económicas, industriais e sociais adversas do século XX, e talvez do próprio século XXI.

Gandhi
Realizador: Richard Attenborough
Actores: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen.
Idade: M/1

O filme conta a história de Mohandas K. Gandhi, desde o início da sua carreira como advogado na África do Sul, protestando contra a discriminação racial, até a sua morte, depois de se ter tornado o líder espiritual da Índia, após a sua luta contra o domínio colonial britância e por uma sociedade e cultura indianas integrada. Partidário de uma política de não-violência e de desobediência civil, conduziu o processo que levaria à independência do subcontinente indiano, mediante acções de protesto não-violento contra o governo inglês. Ironicamente, o compromisso apaixonado de Ghandi pelo protesto pacífico resulta muitas vezes em violência e morte, bem como na sua prolongada prisão. A maior parte da acção foi filmada nos locais onde onde se registaram os acontecimentos reais, com a cena do enterro de Ghandi a utilizar mais de 400 mil figurantes. Trata-se de um filme que pode ser explorado não apenas na disciplina de História, mas também na nova área de Formação Cívica, explorando os conceitos de opressão, liberdade, não-violência, desobediência civil, direitos humanos, etc.

Capitães de Abril
Actores: Stefano Accorsi, Maria de Medeiros, Joaquim de Almeida, Frédéric Pierrot, Fele Martínez, Manuel João Vieira
Realizador: Maria de Medeiros
Idade: M/12

Maria de Medeiros escolhe para a sua estreia na realização uma história de peso. O filme acompanha as 24 horas que mudaram Portugal entre os dias 24 e 25 de Abril de 1974, e centra-se na figura do capitão Salgueiro Maia, que parte da Escola Prática de Cavalaria em Santarém para Lisboa para ocupar o Terreiro do Paço e forçar a rendição do governo. Os acontecimentos são apresentados ao espectador pelos olhos de uma criança (Maria de Medeiros à data).

Em nome do pai
Actores: Daniel Day-Lewis, Emma Thompson, Pete Postlethwaite, Anthony Brophy, Frankie McCafferty, Mark Sheppard
Realizador: Jim Sheridan
Idade: M/12

Baseado na história verídica de Gerry Conlon, um jovem de Belfast, Irlanda, que, juntamente com alguns membros da sua família, é falsamente acusado e condenado por um atentado cometido pelo IRA (Exército Republicano Irlandês) nos arredores de Londres. Passará 14 anos na prisão, com o seu pai a tentar provar a sua inocência, com a ajuda de um advogado britânico, Gareth Peirce. Eficiente denúncia dos abusos cometidos pelo governo britânico no caso dos “quatro de Guilford”. Alguns acontecimentos são ficcionados para aumentar a carga dramática, como reunir pai e filho na mesma cela.

Grita Liberdade
Actores: Denzel Washington, Kevin Kline, Penelope Wilton
Realizador: Richard Attenborough
Idade: M/12

Donald Woods é o editor-chefe do jornal Daily Dispatch da Africa do Sul, onde critica severamente os pontos de vista de Steve Biko, um jovem activista negro que luta contra o apartheid. Mas depois de conhecer Biko, muda de ideias e toma consciência da situação dos negros na África do Sul. Esta reviravolta vai atrair também sobre ele as atenções da Polícia. Baseado em factos reais, o filme inspira-se em dois livros da autoria do próprio Woods.

A Lista de Schindler
Actores: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagall, Embeth Davidtz
Realizador: Steven Spielberg
Idade: M/12

A história verdadeira de Oskar Schindler, um industrial que tenta fazer fortuna durante a II Guerra Mundial, e que acaba por salvar mais de mil judeus polacos do extermínio ao empregá-los na sua fábrica de panelas. Spielberg filma a preto e branco uma magnífica e emotiva reconstituição da vida de um homem vulgar que as circunstâncias da história transformaram em herói.

A Oeste Nada de Novo
Actores: Richard Thomas, Ernest Borgnine, Ian Holm, Donald Pleasence, David Bradley, George Winter
Realizador: Delbert Mann
Idade: M/ 12

Filme mudo de marcante conteúdo antibélico, vencedor de um Óscar em 1930, adaptado de um romance de Erich Maria Remarque.

Nada volta a ser igual depois da dolorosa experiência de uma guerra. A história de um grupo de rapazes alemães de dezoito anos, que, depois um duro treino, são enviados para a frente, durante a Primeira Guerra Mundial. O entusiasmo e patriotismo, próprios da sua juventude, vão-se transformando em desolação e amargura, à medida que convivem com a fome, o medo e a dilacerante impotência que provoca a perda de um companheiro. Muitos morrem na batalha, mas aqueles que sobrevivem ficam marcados para o resto da sua vida.

Diários de Che Guevara
Actores: Gael García Bernal, Rodrigo De la Serna, Mercedes Morán, Jean-Pierre Noher, Lucas Oro, Marina Glezer
Realizador: Walter Salles
Idade: M/12
Em Janeiro de 1952, Ernesto (Gael Garcia Bernal, Amor Cão), estudante de medicina de 23 anos e Alberto (Rodrigo de La Serna) bioquímico, partem numa velha mota, uma Norton 500 conhecida como ‘Poderosa’ numa viagem de oito meses que os vai levar de Buenos Aires até ao destino final, a península de Guajira, na Venezuela.
O que começa como uma aventura muda pouco a pouco de forma. O confronto com a realidade social e política da América Latina altera a percepção que os dois viajantes têm do mundo, despertando novas vocações, associadas ao desejo de justiça social.

Terra Sangrenta
Actores: Sam Waterston, Haing S. Ngor, John Malkovich, Julian Sands.
Realizador: Roland Joffé
Idade: M/12

Sydney Schanberg é um jornalista do New York Times que se encontra a fazer a cobertura da guerra civil no Camboja. Junto com o correspondente no local, Dith Pran, testemunham algumas das tragédias e loucuras da guerra. Quando os Americanos partem, Dith Pran envia a sua família com eles, mas fica para trás para ajudar Schanberg na cobertura dos acontecimentos. Quando a situação se complica, Schanberg, de nacionalidade americana, não tem problemas em abandonar o país, mas o mesmo não acontece a Pran, que fica à mercê dos Khmeres Vermelhos. Um filme intenso sobre a amizade, a lealdade e a sobrevivência aos horrores da guerra, baseado em factos verídicos e premiado com três Óscares.

O Pianista
Realizador: Roman Polanski
Actores: Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Frank Finlay, Maureen Lipman, Emilia Fox, Ed Stoppard , Julia Rayner.
Idade: M/12

Um belo e comovente filme premiado em 2002 com a Palma de Ouro em Cannes e com três Óscares da Academia de Hollywood para Melhor Realizador, Melhor Actor e Melhor Argumento Adaptado, inspirado na autobiografia do pianista polaco Wladyslaw Szpilman, que, por ser judeu, sofreu na pele os horrores do Holocausto nazi. Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) interpretava peças clássicas numa rádio de Varsóvia quando as primeiras bombas caíram sobre a cidade, em 1939. Com a invasão alemã e o início da 2ª Guerra Mundial, começaram também restrições aos judeus polacos pelos nazis. O filme mostra o surgimento do Gueto de Varsóvia, quando os alemães construíram muros para encerrar os judeus em algumas áreas, e acompanha a perseguição que levou à captura e envio da família de Szpilman para os campos de concentração.
Sobrevivendo à guerra numa Varsóvia em escombros, Szpilman voltou por fim a tocar o seu amado piano, que lhe garantiu a sanidade mental e a força necessária para que permanecesse vivo depois de tanto sofrimento.

Hotel Ruanda
Actores: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Nick Nolte, Joaquin Phoenix
Realizador: Terry George
Idade: M/12
Estamos em 1994.
Ruanda é palco de uma das maiores atrocidades da história da humanidade onde, em apenas 100 dias, quase um milhão de tutsis são brutalmente assassinados por milícias de etnia hutu. No cenário destas indescritíveis acções um homem promete proteger a família que ama, acabando por encontrar a coragem para salvar mais de um milhar de refugiados.
‘Hotel Ruanda’ conta-nos a história verídica de Paul Rusesabagina, um homem que conseguiu evitar o genocídio de mais de 1200 tutsis durante a guerra civil ao conceder-lhes abrigo no hotel que dirigia na capital de Kigali.

A Missão
Realizador: Roland Joffé
Actores: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn
Idade: M/12

Século XVIII. Os grandes impérios coloniais, Espanha e Portugal, disputam o domínio da América do Sul. O padre Gabriel (Jeremy Irons) dirige uma missão no alto das montanhas no Brasil, onde os nativos são evangelizados levando uma vida pacífica. Robert de Niro desempenha o papel de Mendonza, um traficante de escravos arrependido que, fascinado pelo trabalho do padre Gabriel, acaba por se lhe juntar na missão, tornando-se sacerdote. A pressão levada a cabo por Portugal obriga a Igreja a ceder as terras em que estava implantada a missão. O padre Gabriel e Mendonza, por caminhos diferentes, fazem os possíveis para defender a missão e evitar que os nativos sejam escravizados. Palma de Ouro para o Melhor Filme no Festival de Cinema de Cannes e Óscar para a melhor fotografia.
Um dos melhores filmes de sempre sobre os efeitos da colonização europeia no continente americano.

A Confissão
Realizador: Costa-Gavras
Actores: Yves Montand, Simone Signoret, Gabriele Ferzetti, Michel Vitold, Georges Aubert, Michel Beaune, Marc Bonseignour.
Idade: M/12

A verdadeira história do líder comunista checoslovaco Artur London, que um dia foi inexplicavelmente preso por suposta traição à pátria e sujeito a torturas físicas físicas e psicológicas para confessar o crime. Uma denúncia dos regimes totalitários

Papagaio de Papel Azul
Realizador: Thian Zhuangzhuang
Actores: Tian Yi, Wenyao Zhang, Xiaoman Chen, Liping Lu, Quanxin Pu, Xuejian Li, Baochang Guo, Ping Zhong, Quanzhong Chu, Xiaoying Song, Hong Zhang, Yanjin Liu, Bin Li, Zhang Lu, Donglin Guo.
Idade: M/ 12

Um olhar desapaixonado sobre a revolução cultural chinesa, através da história de uma família durante os tumultuosos anos 50 e 60, mostrada pelos olhos de uma criança, Tietou. O pai de Tietou é bibliotecário, e, numa reunião de funcionários da biblioteca, durante os primeiros tempos da Revolução Cultural, abandona por momentos a sala. Quando regressa, descobre que foi rotulado de reaccionário, o que conduz ao seu banimento para um centro de “reeducação”. Uma denúncia do regime maoista e das perseguições arbitrárias que desencadeou.

Um guia com sugestões para a comemoração do Dia dos Direitos Humanos, no próximo dia 10 de Dezembro. Da responsabilidade da IIE (Instituto de Inovação Educacional, pode ser descarregado aqui.

«Nenhum homem é ilha isolada, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra, se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano.

E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.»
John Donne

Imagem: ONU

Na próxima semana, entre 12 e 14 de Dezembro, a nossa Biblioteca organiza a II Feira do Livro Usado.  A partir de doações de alunos, encarregados de educação e professores, a feira realiza-se na Biblioteca e é uma oportunidade para todos os membros da comunidade escolar poderem renovar a sua biblioteca a preços a partir de 50 cêntimos, até um máximo de 5 euros. A I Feira foi um grande sucesso, tendo sido vendidos mais de 300 exemplares (na imagem, uma foto da feira de 2006). Os lucros da feira revertem para a actualização do fundo documental da Biblioteca.

No relatório PISA (Programme for International Student Assessment), divulgado hoje, os alunos portugueses continuam abaixo da média da OCDE em todos os parâmetros analisados pela organização de Paris no que diz respeito às competências adquiridas em ciências, leitura e matemática. Apesar de ligeiras melhorias no domínio da ciência e da leitura, Portugal contínua na cauda da Europa, sobretudo na área da Matemática. Quanto às competências no domínio da leitura, Portugal situa-se no 31.º lugar no conjunto dos 56 países estudados (alguns não pertencem à OCDE). Em termos gerais, o nosso país ocupa o 37.º lugar. Numa escala até 600 pontos, os estudantes portugueses obtiveram 474, abaixo da média global de 491. A tabela é liderada pela Finlândia, com 563 valores. Abaixo de Portugal ficaram, entre outros, Grécia, Bulgária, Turquia, Roménia, Argentina ou Brasil. No estudo participaram 5109 alunos portugueses, de 172 escolas, desde o 7.º ao 11.º anos.

Autor: Ian McEwan
Editor: Gradiva
Data: 2007 (4.ª ed.)
N.º de Páginas: 115
Como seria estar dentro do corpo de um gato, apanhar um ladrão em flagrante, desmascarar o rufião da escola ou tornar a família invisível? Peter Fortune é um rapaz de dez anos que pensa nestas coisas e vive algures entre a fantasia e a realidade. Mas os adultos não o compreendem nem imaginam as coisas fantásticas que lhe passam pela cabeça e, por isso, os seus sonhos só lhe trazem problemas.
Contando estas histórias admiráveis, Peter abre finalmente as portas do seu mundo secreto e fascinante. E convida-nos a entrar nele…
O Sonhador é a primeira obra de Ian McEwan no domínio da literatura juvenil, mas agradará igualmente a jovens e adultos. As histórias extraordinárias que compõem o livro celebram a imaginação humana, e as ilustrações de Anthony Browne, artista várias vezes premiado, permanecerão também na memória dos leitore