Até ao dia de Natal, publicaremos todos os dias um poema de um autor português sobre o Natal. Este é o oitavo:
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EXCERTO DUM CONTO DE NATAL

Bate o mendigo a uma porta e fala
Com uma voz que geme, treme e exala
Todo o cansado frio e a velha fome
Que o seu corpo tristíssimo consome:
– Irmão, peço poisada. É um mendigo
Que, foi, um dia, o teu melhor amigo,
E que a Dor imortal, com desenganos,
Envelhecendo anda há dois mil anos!
Dar-me-ás do teu lume e do teu pão
E mais da tua caridade, irmão.

Morri por ti, pregado numa cruz.
Abre-me a tua porta, Sou Jesus…

E de dentro da casa, onde bateu,
Eis que uma voz assim lhe respondeu:
– O meu cão vem das terras onde cavam
Cavadores que eu pago e ma desbravam:
É para a minha mesa, é pra meus dentes
Que o mastigam agudos e contentes.

O meu lume é só meu. O lenhador,
Que é o meu servo, como cavador,
Abate as minhas árvores, trabalha
Para me dar conforto, e me agasalha.

E o sol amadurece o pão que é meu,
Que apenas para mim floriu, cresceu,
E enrijo cada árvore tamanha
Que me dará, em cada Inverno, a lenha.

Lume e pão são pra mim. Não quero dar!
Tu és Jesus? Mas nunca ouvi falar…

Vai Jesus pelas ruas da Cidade,
Sozinho, preso de uma ansiedade,
Que era lembrar a voz que lhe falara
Pela boca do Rico dura e avara
Antes causar-se plo caminho escuro,
Labutar e perder-se e, mal seguro,
Descansa pelas granjas ao relento,
Coberto e agasalhado pelo vento,
Mas as ruas andavam povoadas
De sombras aflitivas e curvadas:
Uma senhora, com um véu plo rosto.
Toda de luto, ali se tinha posto
Silenciosa e silenciosamente,
Uma mão estendia para gente.

Esfrangalhada, toda enfezadinha
Com a voz de sono, uma pobrezinha
Disse a Jesus, que se compadecesse,
– Ele não tinha nada que lhe desse…
E Jesus, debruçado prà mendiga
Numa ternura comovida e antiga,

Com mão de avó, consoladora e boa,
Com seu gesto de outrora, acariciou-a…
Oh! desgraçado! – foi Jesus pensando
Entre as alas pobres caminhando –
Oh! desgraçado do mendigo triste
Que na Cidade pede esmola existe!

Estes presos da Rua nem conhecem
As árvores, as aves que enternecem,

A natureza cândida que estreita
A Dor nos braços e nenhuma enjeita!
Boquiabertos defronte das vitrinas
Roçam pela dureza das esquinas,
E nada sabem dos leais afagos
Da ave que canta e do perdão dos lagos…

E no Campo seria que Jesus,
Que morreu pelos pobres numa cruz,

Acharia, o irmão risonho e amigo
Que, pla doçura do Verbo antigo,
Das parábolas doces se lembrasse
E, por elas feliz, o agasalhasse
E da cidade trágica fugindo
Jesus foi caminhando, foi seguindo.

Afonso Lopes Vieira

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