Os Reinos do Norte
de Philip Pullman
Editorial Presença, 2001
N.º de Páginas: 368
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Sinopse:
Comparado a C. S. Lewis, Tolkien ou Lewis Carroll, Philip Pullman assina uma magnífica trilogia intitulada Mundos Paralelos, agora relançada na Colecção Via Láctea que abrange um público mais vasto do que a anterior colecção Estrela do Mar. Neste primeiro volume, estão presentes os ingredientes indispensáveis a um universo fantástico desde o thriller, ao mito clássico, ao conto de fadas, ao suspense, à luta entre o bem e o mal até ao terror mais genuíno e arrepiante. A protagonista é uma menina de onze anos, Lyra, que irá fazer uma viagem perigosíssima às vastidões do longínquo Norte para tentar desvendar os misteriosos acontecimentos que por lá se passam…

Crítica de Joana Amaral Cardoso, Público-Ípsilon:

Em cada leitor de Philip Pullman haverá um espectador? Provavelmente haverá muitos mais espectadores do que leitores, dado o potencial “blockbuster” natalício do filme de Chris Weitz. Os livros de Pullman já venderam 50 mil exemplares em Portugal e os leitores que forem ao cinema ver Daniel Craig e Nicole Kidman vão estar em melhor situação do que os que nunca leram os “Mundos Paralelos” (“His Dark Materials”, no original inglês, do verso de “Paradise Lost”, de John Milton, uma fortíssima influência na trilogia). “Quem ler o livro depois de ter visto o filme vai ficar mais pobre, porque a imagem se vai impor à imaginação”, diz Maria do Rosário Monteiro, tradutora da trilogia para português e professora do curso de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa. Os filmes não são os livros, são sempre outra leitura deles e é preciso estarmos conscientes disso, considera. “O que posso aconselhar é que vão ver o filme e depois leiam os dois outros livros. E o último é para ler com atenção, para não se fazer leituras radicais, atribuindo-lhe intenções que não estão lá.” Este é um aviso para leitores e espectadores. Os “Mundos Paralelos” tendem a ser erradamente conotados com uma mensagem anti-religiosa, mais precisamente anti-católica. Philip Pullman é membro da Sociedade Secular norte-americana e o seu livro tem forte componente crítica em relação a uma certa igreja. Mas daí aos protestos da Liga Católica dos EUA vão longas milhas. “O que há ali é um ataque à igreja enquanto instituição humana, que está sujeita às regras da História e que nessa óptica pode ser criticada”, diz Maria do Rosário Monteiro. Pullman aborda-a “de forma democrática”: tanto evidencia os males da “área protestante, porque o Papa daquela altura (uma espécie de século XVII) é um calvinista”, quanto fala do que de “mais extremista houve na igreja católica, a Inquisição espanhola”. A trilogia não se esgota numa crítica religiosa e junta conceitos de diferentes áreas para criar um universo semelhante ao nosso, mas que é mesmo algo fantástico. Desde a “cultura de um enorme humanismo e direito à diferença” até aos conceitos de mundos paralelos da física, bem como os textos do Antigo Testamento e os apocalipses apócrifos, em que Pullman baseia o seu conceito de criação.

Além da psicologia de Jung – Maria do Rosário Monteiro considera que os “daemons” de cada pessoa, os génios na sua própria tradução, “são a anima e o animus destas pessoas”, exactamente por serem o masculino no feminino e vice-versa. A professora destaca “a enorme quantidade de material que o autor reúne – há por trás disto uma vastíssima cultura, que é a única forma de criar textos de fantasia interessantes”. Mas afinal, quem são os leitores de Pullman? É que esta foi a obra cujo terceiro tomo, “O Telescópio de Âmbar”, foi o primeiro livro da categoria infantil a vencer o Prémio Whitbread (2001). E “A Bússola Dourada” ganhou a Carnegie Medal (1995) de ficção infantil. Contudo, “a faixa etária aqui não pode ser a do Harry Potter”, avisa a tradutora, embora sustente que os mais novos podem ler “Mundos Paralelos”, mas que não irão “retirar da obra aquilo que podem tirar quando forem mais velhos e tiverem feito outras leituras”. Sobretudo o último volume, que deve ser lido entre os 16 e os 20 anos, sugere, “numa fase em que já não haja aquela noção, que todos temos quando somos jovens, de que somos eternos, onde já tenha havido o confronto com a morte, que é um dos temas essenciais do livro”. Os livros de Pullman são uma montanha-russa entre dimensões, um planisfério de vários mundos, uma correria feita primeiro por uma menina de 12 anos e depois por um par de jovens enamorados. Os seus “pais literários” são os “românticos, grandes fundadores do género do fantástico” e aproxima-se de Tolkien em termos de bagagem cultural e de criação de “textos de fantasia legíveis pelas crianças, mas que são sobretudo para adultos. Mas o seu horizonte não é um texto que venha na tradição do Tolkien, de lenda medieval”. E hoje qualquer pessoa tem referências básicas sobre a literatura do fantástico. A isso podemos chamar moda e ela há-de passar. “Este género literário é quase sempre marginal. Hoje em dia é que se assiste a esta tentativa editorial de colocar a fantasia como leitura ‘mainstream'”, diz Maria do Rosário Monteiro. “O fantástico é sempre um ataque as noções consensuais de realidade, a nossa tendência para o maniqueísmo. É sempre marginal, revolucionário e raramente ocupa o primeiro lugar.”~

Páginas sobre o filme:

www.goldencompassmovie.com (site oficial)
www.apple.com/trailers/newline/thegoldencompass
(trailers)
www.imdb.com/title/tt0385752

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