Comemora-se no dia 21 de Março o dia da Poesia. Todos os dias, até lá, oferecemos um poema:

Nuvens (I)

Não, nem a uma só coisa é alheia

uma nuvem. Não são as catedrais

de vasta pedra e bíblicos vitrais

que o tempo há-de alisar. Nem a Odisseia,

que muda como o mar. Diferente a sinto

sempre que a abro. O reflexo da tua

face é já outro no espelho que actua

e o dia é um duvidoso labirinto.

Somos os que se vão. A numerosa

nuvem a desfazer-se no poente

é a nossa imagem. Incessantemente

converte-se uma rosa noutra rosa.

És mar, és nuvem, és esquecimento.

És tudo aquilo que foste perdendo.

Nuvens (II)

Pelo ar andam plácidas montanhas,

Trágicas cordilheiras de penumbra

Que escurecem o Sol. Quem as vislumbra

Chama-lhes nuvens. As formas são estranhas.

Shakespeare observou uma. Era igual

A um dragão. Tal nuvem de uma tarde

Na sua fala resplandece e arde

E ainda hoje a vemos, afinal.

Que são as nuvens? Uma arquitectura

Do acaso? É Deus que delas necessita

Talvez para executar a Sua infinita

Obra e são fios dessa trama obscura.

Uma nuvem talvez seja tão vã

Como o homem que a vê nesta manhã.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

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