Em A Hora Má: O Veneno da Madrugada, Gabriel Garcia Márquez constrói uma inesquecível fábula da violência colectiva.
A um povoado perdido na América do Sul chegou a hora má dos camponeses, a hora da desgraça. Certo amanhecer, enquanto o Padre Angel se prepara para celebrar a missa, ouve-se um tiro na aldeia. Um comerciante de gado, informado da infidelidade da mulher por um papel colado na porta da sua casa, acaba de matar o seu presu¬mível amante. E um dos pasquins anónimos cravados durante a madrugada nas portas das casas, que não são panfletos políticos mas apenas denúncias sobre a vida privada dos cidadãos, e que nada revelam que não seja do conhecimento de todos há algum tempo. São os velhos boatos que agora se tornam públicos: traições amorosas e políticas, assassinatos, segredos de família envolvendo filhos bastardos e romances escusos. Todos se sentem atingidos e ameaçados, dos cidadãos mais eminentes aos mais humildes. Todos parecem ter algo a esconder e a revelar. Qualquer habitante pode ser o autor dos bilhetes ou a próxima vítima.
Este romance foi adaptado ao cinema pelo realizador brasileiro Ruy Guerra.

Eis um breve excerto:
«A única porta aberta na praça era a da igreja. César Montero olhou para cima e viu o céu espesso e baixo, a dois palmos da sua cabeça. Benzeu-se, esporeou a mula e fê-la girar várias vezes sobre as patas traseiras, até que o animal se firmou no escorregadio do chão. Foi então que viu o papel colado na porta de sua casa.
Leu-o sem desmontar. A água tinha dissolvido a cor, mas o texto escrito a pincel, com maiúsculas mal desenhadas, mantinha-a suficientemente legível. César Montero encostou a mula à parede, arrancou o papel e rasgou-o em pedaços.»

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