Começamos hoje a publicar a colectânea de poemas elaborada pela Biblioteca, e que os alunos irão declamar no dia 11 de Fevereiro, dia do patrono. Os poemas, na maioria de poetas lusófonos, serão publicados por ordem alfabética do apelido do autor, ao ritmo de 1 por dia:

CANTARES SANTOMENSES

Caetano da Costa Alegre


Branca a espuma e negra a rocha,

Qual mais constante há-de ser,

A espuma indo e voltando,

A rocha sem se mexer?

*

Não creias que em teu jazigo

Alguém parta o coração,

No mundo quem morre, morre,

Quem cá fica come pão.

*

Não me dizem quanto tempo

Tenho ainda que viver,

Ficava ao menos sabendo

Quando finda o meu sofrer.

*

Se eu me casasse contigo,

Fazia um voto de ferro,

De deixar-te unicamente

No dia do meu enterro.

*

Todos me dizem: “esquece

Essa paixão, que te abrasa”.

Que serve fechar a porta

Ao fogo que tenho em casa?

*

Não havia tanta cara

De asno, de tolo e pedante,

Se falasse, quem censura,

Com um espelho adiante.

*

Brotam espinhos da rosa,

O incêndio brota do lume.

A traição brota das juras,

Brota do amor o ciúme.

*

Numa loja conhecida

O que é cem custa duzentos,

Levam dinheiro em fazendas

E o tempo nos cumprimentos.

*

Macaco, chamaste tolo

Ao meu pequeno sagüi.

Também queria que ouvisses

O que ele disse de ti.

*

Por teu desdém não me mato,

Não faço tamanha asneira,

Se o meu amor tu não queres,

Há muita gente que o queira.

*

Quem pode num campo vasto

O joio apartar dos trigos?

Quem conhece dentre os falsos

Os verdadeiros amigos?

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Caetano da Costa Alegre

[1864-1890]

Caetano da Costa Alegre (26 de Abril de 1864- 18 de Abril de 1890) foi um poeta lusófono, nascido no seio de uma família crioula de cabo-verdiana, na então colónia portuguesa de São Tomé.

Em 1882 se mudou-se para Portugal, e frequentou a faculdade de Medicina em Lisboa, para se formar como médico naval, porém morreu de tuberculose antes de poder cumprir tal objectivo.

A sua obra, escrita em estilo romântico, popular na época, foi um êxito imediato pela forma como celebra suas origens africanas, a expressão de nostalgia do estilo de vida de São Tomé, e a descrição do sentimento de alienação em se encontrava sua raça.

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