LÁGRIMA DE PRETA
António Gedeão

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
__
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
__
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
__
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
__
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
__
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

______________________
António Gedeão
[1906-1997]

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nasceu e faleceu em Lisboa. Além de poeta, foi professor de Ciências Físico-Químicas, poeta, investigador, historiador, escritor, fotógrafo, pintor e ilustrador, aliando a ciência à literatura. Obras poéticas: Movimento Perpétuo (1956), Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967), Poesias Completas (1975), Poemas Póstumos (1983), Novos Poemas Póstumos (1990). Ficção: A Poltrona e Outras Novelas (1973). Teatro: RTX 78/24 (1963). Estudos: História da Fundação do Colégio Real dos Nobres (1959).

Anúncios