PROFESSOR, DIZ-ME PORQUÊ?
Cecília Meireles

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem roda
e roda, gira, rodopia
e cai morto no chão…

Tenho nove anos, professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar
Por que é que o carro é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tantos porquês que eu…
eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas, falas professor daquilo que te interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar,
se eu vou descobrir
faz-me decorar!
É a luta professor
a luta em vez do amor….

mas,
enquanto tua voz zangada ralha
tu sabes, professor,
eu fecho-me por dentro,
faço uma cara resignada
e finjo que não penso em nada,
mas penso…

Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar…
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar.

E quando tu podei vens definir
o que são conjuntos e preposições,
quando me fazes repetir
que os corações
tem duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tantas mais definições…

Meu coração, o meu coração
Que não sei como é feito
E nem quero saber…
Cresce dentro do peito
A querer saltar pra fora, professor
E ver se tu assim compreenderias
E me farias mais belos os dias!
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Cecília Meireles
[1901-1964]

Cecília Benevides de Carvalho Meireles, poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira, nasceu no Rio de Janeiro no 7 de Novembro de 1901, descendente de portugueses. Casou-se, em 1922, com o pintor português Fernando Correia Dias, com quem tem três filhas. Faleceu no Rio de Janeiro no dia 9 de Novembro de 1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens públicas. Na opinião do crítico Paulo Rónai poesia de Cecília Meireles «é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea».

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