O MENINO DE SUA MÃE
Fernando Pessoa

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
Duas, de lado a lado,
Jaz morto, e arrefece

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino de sua mãe”.

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lha a mãe. Está inteira a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço … deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece”)
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

__________________
Fernando Pessoa
[1888-1935]

E um considerado um dos maiores poetas portugueses de sempre e autor de intensa actividade literária. Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e outros, esforçou-se por renovar a literatura portuguesa através da criação da revista Orpheu, veículo de novas ideias e novas estéticas. Devido à sua capacidade de criar novos «eus» desdobrou-se por vários heterónimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, etc.), assinando as suas obras de acordo com a personalidade de cada heterónimo. Colaborou em várias revistas, publicou em livro os seus poemas escritos em inglês e, em 1934, ganhou o concurso literário promovido pelo SPN, com a obra Mensagem.

Anúncios