Comemora-se amanhã, dia 2 de Abril, o Dia Internacional do Livro Infantil. Para assinalar essa data, publicaremos todos os dias uma fábula. Hoje é a quarta:

 

O Lobo e o Cão

 

Não tinha um lobo mais do que a pele e o osso.

Sinal é que, de orelha arrebitada,

Bem vigilante andava a canzoada.

Encontra o lobo um cão, forte, grosso,

Nutrido, luzidio, uma beleza!

Que distraído abandonara a estrada.

Sorri-lhe a nédia presa.

Saltar-lhe logo ali, fazê-lo em postas

O seu desejo fora. Dura empresa!

A luta era infalível. Voltar costas,

Não usam perros quando são valentes,

E, mais, os brutos!, Dão às vezes cabo

Do fero contendor! Diabo!… Diabo!

Então aquele, com aqueles dentes!

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;

Chegasse ao cão; abaixa-lhe a cabeça;

Puxa conversa; diz que folga em vê-lo,

Que deixa que ele admire, que ele aplauda

Topá-lo assim… e com tão bom cabelo!…

E rijo! E gordo! Um frade! Uma abadessa!

— Esplêndido senhor. — O cão responde —,

De vós depende o ter igual gordura.

Fugi dos bosques, onde,

Por teima da desgraça,

De fome e frio só achais fartura,

Vós, senhor lobo, e a vossa pífia raça.

Dias e dias sem comerem nada!

E lá por festas, raras, esquecidas,

Um petisquinho conquistado à espada,

Tragado às escondidas!

Ai é certa a morte!

Furtais-vos a seus braços!

Segui, segui meus passos;

Tereis outro destino e melhor sorte.

— Mas como? — volve o lobo.

— Fazer então que devo?

— Bagatela:

Nem morte de homem. Nem de igreja roubo;

Simplesmente estas coisas: não dar trégua

A santa gente rota, mendicante,

Bordão numa das mãos, noutra a tigela,

Que vem inda à distância duma légua

E já tresanda a essência de tratante.

Lamber as mãos ao dono; ser submisso…

Dar coca — é o termo próprio — ao dono e a todo

Quanto bicho-careta houver em casa.

Salário apanhareis que vos apraza:

Ossos das aves, rodas de chouriço,

Restos vindos da mesa, e tudo a rodo!

Até uns tagatés em cima disso!

Tendo prestado ao cão atento ouvido,

O lobo, coitadinho!,

Com perspectiva tal enternecido,

Não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho!

Iam a caminho já do povoado,

Quando o lobo notou que no pescoço

O cão era pelado!

— Que tens aí? — pergunta com alvoroço.

— Nada, que eu saiba. — Nada?! — Frioleira!

— Mas afinal o que é? — Ora!… A coleira, Com que à noite me prendem junto à porta…

— Prender-te?! — o lobo exclama. — Não sais fora,

Não corres livre pela terra inteira

Quando te dá na gana, e a toda a hora?

— Nem sempre. Isso que importa?

— Tanto importa que toda a trincadeira

Com que me acenas, um tesouro embora,

Por tal preço não quero!

— O lobo finda,

Põe-se logo na perna, e corre ainda!

 

(Trad. de Francisco Palha)