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Integrado no programa de comemorações do Dia da Árvore e do Dia da Poesia, continuamos hoje com publicação de uma colectânea de 20 poemas sobre a árvore ou a natureza, maioritariamente de autores portugueses.

Poema das Árvores


As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

As árvores, não.

Solitárias, as árvores

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.

António Gedeão

LÁGRIMA DE PRETA
António Gedeão

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
__
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
__
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
__
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
__
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
__
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

______________________
António Gedeão
[1906-1997]

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nasceu e faleceu em Lisboa. Além de poeta, foi professor de Ciências Físico-Químicas, poeta, investigador, historiador, escritor, fotógrafo, pintor e ilustrador, aliando a ciência à literatura. Obras poéticas: Movimento Perpétuo (1956), Teatro do Mundo (1958), Máquina de Fogo (1961), Poema para Galileu (1964), Linhas de Força (1967), Poesias Completas (1975), Poemas Póstumos (1983), Novos Poemas Póstumos (1990). Ficção: A Poltrona e Outras Novelas (1973). Teatro: RTX 78/24 (1963). Estudos: História da Fundação do Colégio Real dos Nobres (1959).

Comemora-se amanhã, 24 de Novembro, o Dia Nacional da Cultura Científica, dia escolhido por ser o do nascimento de Rómulo de Carvalho (1906-1977).
Para assinalar este dia, deixamos-te aqui um vídeo de um poema de António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho), chamado Poema Para Galileu, dito por Mário Viegas, e ainda um dos poemas mais conhecidos do poeta e cientista:

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.

Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.


Encontra-se disponível na biblioteca mais um título de poesia para leitura em sal de aula no âmbito do Plano Nacional de Leitura. Trata-se da obra Poemas escolhidos de António Gedeão, numa antologia organizada pelo autor. Eis dos belos poemas incluídos na colectânea:

Tudo é foi

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

Terminamos hoje, dia do aniversário de Rómulo de Carvalho, a série de poemas do seu pseudónimo António Gedeão. Guardámos para o fim um dos mais conhecidos.

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

Aqui fica o sétimo poema de António Gedeão:

Como será estar contente?

Como será estar contente?

Lançar os olhos em volta,

moderado e complacente,

e tratar com toda a gente

sem tristeza nem revolta?

Sentir-se um homem feliz,

satisfeito com o que sente,

com o que pensa e com o que diz?

Como será estar contente?

Aqui fica o sexto poema de António Gedeão:

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta

ao serviço das nações.

Não tem carga nem espoleta

mas dispara em linha recta

mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,

nem Snark ou outros que tais.

É coisa muito melhor que todo o vasto teor

dos Cabos Canaverais.

A potência destinada

às rotações da turbina

não vem da nafta queimada,

nem é de água oxigenada

nem de ergóis da furalina.

Erecta, na torre erguida,

em alerta permanente,

espera o sinal da partida.

Podia chamar-se VIDA.

Chama-se AMOR, simplesmente.

Aqui fica o quinto poema de António Gedeão:

Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.

Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.

Espaço vazio, em suma.

O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,

este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,

esta fresta de nada aberta no vazio,

deve ser um intervalo.

Aqui fica o quarto poema de António Gedeão:

Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua

com os olhos postos no chão.

Quem me quiser que me chame

ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar

de tédio os olhos vidrados,

olharei para os prédios altos,

para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,

aprendiz colegial.

Sou amador da existência,

não chego a profissional.

Aqui fica o terceiro poema de António Gedeão:

Reflexão total

Recolhi as tuas lágrimas

na palma da minha mão,

e mal que se evaporaram

todas as aves cantaram

e em bandos esvoaçaram

em tomo da minha mão.

Em jogos de luz e cor

tuas lágrimas deixaram

os cristais do teu amor,

faces talhadas em dor

na palma da minha mão.

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